Rolanding
Sunday, September 5, 2010
Monday, August 9, 2010
Ao Cruzeiro X – XX Anos de Instituição João Tomás Nunes
crítica, cultura material e ecologias não-humanas no sentido de inventariar o centro
histórico da vila - um Cruzeiro de cruzamentos definido - em penoso contraste
circundante. Se fosse só a memória…
Num perímetro supostamente protegido da monstruosidade da especulação
imobiliária pelo seu carácter patrimonial, em, digamos, vinte anos – sim, porque isto é
também ou sobretudo um testemunho geracional – as circunstâncias alteraram-se de
tal forma que o presente se pode definir em termos adversativos. Reduzindo a grande
narrativa à guerra de fundo que tudo condicionando se trava em todo o lugar, temos
que em Fermentelos se traduz o combate na passagem de “não concedemos que seja
como em ‘qualquer lado’, porque aqui e aqui sabemos fazer e fazemos” para uma
atitude refugiada na alegada inevitabilidade de ídolos e chavões.
Ao Cruzeiro a síntese operada é evidente e representa em sua centralidade
estropiada a falência do processo autóctone face à afronta modernista e a seus
dispositivos estandardizado(re)s. Se decerto uma tendência já então verificável, mais
certo é ainda que quem a vinte anos não consegue evocar este Largo e o contempla
hoje não faz ideia do que se perdeu. Chegámos a um ponto-de-assembleia em que as
melhores casas que fizemos tombam – deixadas cair, postas abaixo – e as árvores de
fruto cedem lugar ao cimento que não produzimos mas cujos sacos acartamos, a moral
da história sendo, cá está, a história da desmoralização de uma vila, exemplarmente
sublinhada na mutação arquitectónica em questão – e sobretudo no que esta traduz
enquanto curto-circuito cultural. Afinal, o que deixamos cair e demolimos, o que
deixamos ao abandono e desconsideramos, votamos (eis o belo do voto botado à urna
democrática) ao ostracismo, de identidade restando quanto muito um bilhete de uma
República que, após cem anos, segue por reconhecer uma antiga terra de Rei e trata a
maior lagoa natural da Península Ibérica como um paul de pacóvios.
Em vinte anos de desintegração portuguesa na Comunidade-União-Europeia (o
a€reo sendo tão só aquele bónus inflacionando a ilusão do hiper-mercado), decaímos
no terreno e parece quase impossível resistir à voragem, mas podemos tentar de facto e
à escala: não se sente cada fermentelense implicado em cada fermentelense
performance ou instalação? Por que não geramos nossa energia e tratamos de nossos
processos em nossos termos? Porque são medíocres estes nossos tempos?
Fazendo um balanço de vinte anos,
Da resposta às retóricas do sistema só poder ser dada por sistemática e
localizada recolecção, remontando afazeres e da cepa de Fermentelos fazendo
demarcadas Reservas, um ensaio escatológico do desenvolvimento usurário à economia
directa nativa em perspectiva.
Thursday, August 27, 2009
Ao Cruzeiro IX - Da Senhora da Saúde ao 25 de Agosto aos Largos de Fermentelos
Ora, tomado a partir do referencial festivo, liminar se revela o dia-a-dia para quem se não afasta da vila em alegações de férias e abdica de celebrar, apesar dos apesares, porque mais que a autoridade formal relevam os termos de comparação realmente consagrados em circulação. E se tudo concorre nas possibilidades envolventes dos espaços colectivos, divergem já grosseiramente as famílias ao Largo, como que em directa proporcionalidade face às partituras aparelhadas democráticas, como se esquece o bem comum na alienação da tradição, meramente representada ou apresentada em confraria para a fotografia.
Alterando-se as relações-ligações estruturais para pior (pior arquitectura, cultura e qualidade de convivência) traduzem-se então as falências processuais como falências geracionais, na medida em que velhas místicas construtivas cedem lugar aos mesmos maus azeites patentes em qualquer subúrbio subordinado a qualquer “cidade”. A questão, porém, anda longe de se esgotar em rótulos de “cidadania” se decerto a nossa identidade jaz ainda por baixo de morros de silvas que – ainda – vão protegendo – encobrindo - este e aquele bastião de resistência, nossos muros, poços e casas de adobo, fontes...e os desfalecidos Largos ao largo, do Cruzeiro ao Carvalhal ao Sobreiral agora meras designações.
Não foi pela presença e dimensão das árvores da nossa iniciativa, não confundidas com exemplares de gabinete, que orgulhosamente nos demarcámos e demarcámos nossos caminhos? Como aceitar que nossos Largos – de nossos entrecruzamentos – se achem exemplarmente desfalecendo a soldo de directivas entaipadas d’abstracções imobiliárias?
A vida que falta a Fermentelos é a nossa e não é uma pós-vida da U.E., a via que falta a Fermentelos é a cooperativa, nossa substância partilhada podendo e devendo assegurar regulações próprias. Que podemos fazer cooperativamente senão o melhor do que é nosso para todos nós? Podemos e devemos valorizar a nossa terra, mas tal implica localizar trabalho e assegurar religações práticas. Ou já morreu toda a gente que pescou artesanalmente na Pateira, que fez adobes e construiu em vernáculo, que cá trabalhou a madeira de cá, que esteve no arroz e na vinha?
Porque ainda podemos ser um centro performativo de excelência, com Largos e não ao largo, saibamos inflectir o amnésico degredo modernista restaurando o usufruto de nossas propriedades, associando produções e assegurando um standard de justiça e valor nativo, de verdade que não figuradas juntas vontades puxando a carroça de Fermentelos.
Thursday, August 13, 2009
Thursday, July 16, 2009
Da Constituição Moderna à pós-vida da Pateira de Fermentelos
Não tratamos aqui de meros ideais ou opiniões, nem que tudo se equivale no fundo e que “há que aceitar” as coisas – a inevitabilidade do progresso, do desenvolvimento, da civilização – sob penhores a crivar de aspas de liberdade, igualdade e fraternidade. Aqui, no papel, limitamo-nos a constatações sobre, precisamemte, papéis e representações, objectivando que não com a “objectividade” de moedas centradas na especulação e na usura.
Há em Fermentelos, como em toda a parte, inúmeros exemplos do jugo modernista em curso, aquele que, na contingência de argumentário adverso, projecta sua constituição nos discursos sobre e faz do outro outr’algo-ista, tornando-o assim como que mais digestível a suas alarves beiças, dir-se-ia, não fosse alarve termo flagrante corruptela de referência a todo um povo.
Em Fermentelos como em tantas partes, agudiza-se o confronto entre o projecto moderno e o já amiúde inconsciente bom senso das gentes que deixam os dual-ismos para seus feitores e não falham à constatação permanente da dualidade existencial, em resistência conservando raízes sem preço, técnicas e tácticas possuíndo expressão religável fora do mercado, o mercado uma feira e não a total imposição de multinacionais cabazes de plástico. Com os motes do bom senso, porém, está cada vez mais difícil pôr comida na mesa, a substância partilhada devendo-se em requerimento e não em sentido: e como quando tens que pagar por tudo nunca dás como deves, mais a mais (mais!, mais!) que já nasceste devendo à abstracção capital e de joelhos passando a vida capitulas, aos teus legas apenas mais ou menos notas para mais ou menos débitos de inflação mascarada
À vizinhança listada que se perfila neste horizonte estival, temos muito que confrontar com se não nos demitimos de pensar que tudo isto não bate certo e a conversa do menos mau dos sistemas encobre a pobreza a- e e-fectiva dos muitos face à ostentação amoral dos poucos. Pois se se sucedem agendas e se planeiam grandes opções para as unidades do esquema do estado-nação-em-Europeia-União, se se apresentam pilotos projectos e se enunciam “sustentabilidades”, a verdade não consta senão por inferente oposição da Carta de Aalborg como não consta da Declaração de Bolonha ou em quaisquer das directivas que, enfatizando capital e consumo, tomam a criação como propriedade.
Evidenciando uma atitude diferenciada e diferenciadora de valor na comunicação com privados, consoante o enquadramento de suas práticas, necessariamente partindo de uma posição-demonstração pública qual estandarte manifesto, poderia a orgânica democrática legitimar suas reclamações oratórias, considerado possível tal entreposto em tal modo de operar. Mas como se define o interesse público se a maior lagoa natural da Península Ibérica em lugar de motivar localizantes cooperativas associações de restauração e um realinhavar com dignidade de alinhamentos colectivos face a particulares confinâncias antes se adia para uma pós-vida empacotada e de pacotilha?
Friday, September 5, 2008
Ao Cruzeiro VII – Da Procissão das Velas à Assunção das e-vidências nativas
Constâncias há na vida, imponderável que (sendo, é) seja. Destas, as que nos remetem ao sagrado, ao divino e à transcendência e as que ao sagrado, ao divino e à transcendência remetemos - percorrendo certos trilhos - assumem especial incidência.
Navegando na rede de que muito se fala em termos de possibilidades comunicacionais em tempo real, da consulta à página da Paróquia de Fermentelos nas pós-imediações da Sr.ª da Saúde [18/08/08], temos que desta – sem dúvida a maior celebração religiosa Fermentelense – nada aflora além da mera nomeação enquanto ‘festividade’, sem subsequentes ligações, sintomático em etnográfica comparação sendo o alinhamento re-presentado face ao que diferencialmente se faz constar noutros dos menus da página em questão, ‘actualidade’ e ‘eventos’ por exemplo. Pois se eventualmente se seguem referindo em exclusividade datadas viagens (…“Inscreva-se”), a ‘actualidade’ - «tenha acesso permanente à folha semanal “Vida Nova” em formato digital» - cristalizou no IX Domingo do Tempo Comum (a Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria situando-se entre o XIX e o XX), perguntando-se, ironicamente vis-a-vis o fluindo presencial, “Com que alicerces queremos nós, hoje, lançar a construção do futuro?”
Ora, como trabalha afinal a Paróquia de Fermentelos os alicerces do presente quando, contra a própria natureza dos materiais, subcontratou processos antagónicos para obras de desvirtuação – quer os que respeitaram à construção do mono paroquial, quer os empregues na desmaterialização matricial e mesmo os que, palavras actos e omissões, deixam a velha residência paroquial à lástima da imobiliária usura – sarcasticamente afirmando não querer envergonhar ninguém e querer ser digna de nossos antepassados?
Quando em ‘destaque’ Web-paroquial temos, meio ano volvido, a designada celebração (ao anátema central) do “Centenário do Lançamento da 1.ª Pedra da Igreja Matriz de Fermentelos” – que corresponde de igual modo à última das 10 entradas da ‘Galeria Fotográfica’ com 79 fotografias – e nada, imagem, texto ou som algum perpassa da e ou à Sr.ª da Saúde, que inferir de semelhante autismo?
No ano passado ao Cruzeiro passando a Procissão das Velas com Lucas (23, 31) ecoou pergunta – “Porque se tratam assim a madeira verde, o que acontecerá à seca?” – tal que em todas as operações de lavagem arquitectónica e cosmovivencial não cessa de ser cinicamente respondida pela subversão de factos no terreno. Se bem que cem anos são madeira verde havendo relacionais termos de comparação, em Fermentelos, são, quasi-invariavelmente, madeira seca desprezada. Não é o que nos diz, precisamente, a que estoicamente ainda resiste e acossada enfrenta vazios e esvaziares de sentido?
Já este ano e pela voz de D. Ximenes Belo, ao Cruzeiro ecoaram ‘O Dom do Espírito Santo’ (Act 2, 1-9) e, ao 4º Mistério Glorioso em contemplação da Assunção da Santa Virgem aos Céus, o primeiro versículo do primeiro sinal – A Mulher e o Menino – patente no Livro do Apocalipse (Ap 12).
Tratando de religações e estendendo as enunciadas leituras:
Estavam todos assombrados e, sem saber o que pensar, diziam uns aos outros: «Que significa isto?» Outros, por sua vez, diziam, troçando: «Estão cheios de vinho doce.» (Act 2, 12-13)
Mas a terra veio em socorro da Mulher: abrindo a sua boca, a terra engoliu o rio que o Dragão tinha lançado atrás da Mulher. E, furioso contra a Mulher, o Dragão foi fazer guerra contra o resto da sua descendência, isto é, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus. Depois colocou-se na areia da praia. (Ap 12, 16-18)
Tratando de religações, porém, não nos cinjamos a leituras. Questionemo-nos e o possível de nós Fermentelos no que relevamos e revelamos, on e offline, material e espiritualmente, mais mat(r)izes e menos paróquias, ao presente a conjugação sendo gerúndio, a Procissão das Velas Fermentelense como passagem (de passos, a passos) maior das gentes nesta sua terra e empresa maior de tradição e fé que, passante, move e comove a comunidade, respeito e dignidade, andamento ritual colectivo de substancial sentido partilhado, ao Cruzeiro entrecruzando-se ao visível o recontro de expiradas memórias e expiantes recolecções.
[in Região de Águeda, 5 de Setembro de 2008]
Monday, June 9, 2008
Friday, May 16, 2008
Friday, April 18, 2008
Thursday, January 10, 2008
Ao Cruzeiro V - Do novo PDM em Fermentelos ao ano 18 da IJTN
Pela noite de um passado Sábado - a 15 de Dezembro de 2007 - teve lugar em sede da Junta de Freguesia de Fermentelos a apresentação por parte da Câmara Municipal de Águeda das coordenadas do que será o novo Plano Director Municipal (PDM) - suas nuances relacionais e perspectivas enquanto actualização documental do enunciado de 1995. E porque de uma actualização se trata, importa considerar que dos pioneiros termos directores - que nomeiam a Pateira para um 'plano de pormenor' e remetem os imóveis de interesse público para "o articulado legal correspondente para conveniente protecção", apontando dever a tipologia de construção ser mantida nas zonas de protecção ambiental (Artº10) e proibindo "acções de recuperação dos edifícios e imóveis degradados que não tenham em atenção os parâmetros culturais da construção preexistente" (Artº13) - à realidade, gritante o desfasamento. Que aferir, de resto, ao presente dotado de memória histórica, da nomeada criação de "uma zona de protecção de 50 m. de raio em torno da edificação" de interesse público (Artº21), considerando como exemplo desta o ‘valor de interesse concelhio’ Cruzeiro de Fermentelos?
Na transição entre PDMs e na gestão de associadas expectativas (AMRIA, por exemplo), de todas as localizadas localizações interessa sobremaneira atentar nos termos que se seguem, estratégica e paradigmaticamente remetendo-se estes para o 'reforço da coesão social', 'desenvolvimento sustentado' e 'valorização ambiental/turística' via 'qualificação industrial', 'requalificação agrícola', 'valorização residual' e 'potenciação energética'. Assumindo a vontade de criar uma ‘política reguladora do mercado fundiário municipal’, reconhece o executivo camarário a necessidade de melhorar as classificações do uso do solo, indexando diferenciais tipológicos e classes espaciais em extensão ao ‘grau de ruralidade’, o perímetro urbano (man)tendo o limiar de 50 metros. De 'grandes equipamentos' e 'espaços verdes de apoio à comunidade' a 63 ‘medidas-acções’ para a Pateira, do estabelecimento de ‘espaços verdes de protecção' e 'espaços naturais de valorização ambiental e patrimonial' à criação de um ‘mecanismo de valorização e recuperação de edificados abandonados’ particularmente incidente em zonas históricas, sobressai a questão de como conciliar preexistências (quais?) sem um seu levantamento (colectivo de humanos e não-humanos) claro e claro conhecimento.
Ao Cruzeiro, como sintomaticamente evidenciou o Pedro Rui, a questão do interesse e do domínio público carece já da própria centralidade e largura de banda de efectivo Largo, tornado este mera rotunda função de um tráfego automóvel cada vez mais conforme (em conformidade e conformado) à face impostora da suburbanização arquitectónica e veicular. Ainda em xeque por ecos e sombras de vazias perspectivas tributárias de passantes presentes de amnésicas escaladas e estacionamentos, paradoxal, a batalha entre sentido e absurdo opõe também e ainda religião e religação – quando mutações deletérias se apelidam de restauro. Como reviver aqui ao Cruzeiro um centro histórico sem antes estancar a deriva que num ápice de décadas desligou a própria conexão sagrada e convivente do Largo?
Em contextos de aceleradas mutações e desmaterializações, importa saber contrariar e opor, no terreno, concretamente, reais restaurações e actantes descativares artefactuais. Para que se não percam boas e nominais intenções planeadoras, importa necessariamente reabilitar memórias e congelar ‘viabilidades’ de cimentadas afrontas e especulares esquecimentos, sob pena de, emulando recentes passados, se imolar o que ainda subsiste do nativo devir fermentelense.
Da parte da Instituição João Tomás Nunes (IJTN) e pelo ano 18 de recolecção re-existente, a vigília de transcender a exposição permanente de possibilidades autóctones pela tradução de seu intento resistente ao Cruzeiro – e à Pateira - de Fermentelos.
Friday, November 9, 2007
Do V Seminário de Arquitectura de Terra em Portugal ao Fermentelense Devir
Nos passados dias 10, 11, 12 e 13 de Outubro, teve lugar o V Seminário de Arquitectura de Terra em Portugal (ATP), organização conjunta do Centro da Terra, da Escola Superior Gallaecia, da Fundação Convento da Orada e do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro. Para além das apresentações do seminário propriamente dito (a 11 e 12), constou no dia 10 o programa de uma ‘Oficina de Outono’ incidente em cinco módulos (laboratório de solos, taipa, adobe, bloco de terra comprimida e alvenaria), assinalando-se a Sábado, 13, um dia de campo nomeadamente pontuado por uma reconstituição artesanal do fabrico do adobe em Oliveirinha e por uma visita ao Museu Etnográfico de Requeixo. Além do mais, na Galeria da Capitania de Aveiro, esteve patente entre 12 e 21 do passado Outubro, uma exposição sobre Arquitectura de Terra, organizada pela divisão de Museus e Património Histórico da Câmara Municipal de Aveiro e apresentando “fotografias de saibreiras, rostos humanos, testemunhos e utensílios usados por aqueles que dedicaram uma parte da sua vida às construções em terra”.
Numa altura e num contexto em que cresce a acuidade reflexa integrada sobre o modo de fazer as coisas e concomitantes cosmovidências, a congregação internacional em seminário de associados agentes à construção e manutenção de estruturas em terra e relacionados eventos revelou-se particularmente pungente ocorrendo numa região que apresenta ainda uma importante dotação telúrica edificada (35 a 40% do património edificado na região de Aveiro é de terra feito). Com efeito, perante a hegemonia pseudo-eficiente do eixo cimento-tijolo-betão (a absorção de água é superior em 305% no cimento por comparação com a cal), fomentada pelos arautos da vertigem modernista, a assunção académica do vernacular eixo argila-areia-cal-pozolana é de assinalar enquanto reatribuição de valor e restauração de sentido cultural e popularmente arquitectado, trazendo à ATP afins entrepostos de resistência, de Angola ao Irão, do México a Omã, Brasil, Marrocos, Itália, Espanha, Índia, Peru, Argentina, Canadá, E.U.A., Quénia, Colômbia, Moçambique, Venezuela, Gana ou Hungria.
Está longe, porém, de consensual, o reassumir tecnológico nativo de trabalhar e cuidar da terra, quando e se a República (a coisa pública, as coisas públicas) está a soldo de e a saldo para mercenários corporativos que, na suposta justiça abstracta do mercado, impõem seus materiais e procedimentos, seus contratos e suas avaliações independentemente de quaisquer considerações efectivas sobre o bem comum, nomeado este apenas a título de engodo, qual enviesamento perceptivo.
Afinal, quando no seio da comunidade académica e científica cresce o reconhecimento da qualidade e adequabilidade da mais antiga e mundialmente disseminada matéria construtiva, são as próprias populações quem, aparentemente e à superfície, mais alheadas se encontram do vernáculo que, de geração para geração e até há bem pouco tempo – no caso Português particular da região de Aveiro – protagonizaram técnica e localmente.
Embora em muitas leituras, cartas e declarações de intenção transnacionais se sustente claramente dever o enquadramento tradicional ser conservado e dever prescrever qualquer construção nova, qualquer destruição ou qualquer arranjo susceptível de alterar as relações de volume e cor (Carta de Veneza, 1964, Artº6), por cá contam-se agora pelos dedos os que seguem perseverando num saber-fazer de viva memória e vivente voz que assegure a continuidade dos sistemas tradicionais de construção: o património vernáculo não obedece somente aos elementos materiais, edifícios, estruturas e espaços, mas também ao modo em que é usado e interpretado pela comunidade, assim como às tradições e expressões intangíveis associadas ao mesmo (Carta do Património Vernáculo Construído, 12ª Assembleia Geral do ICOMOS, México, 1999).
*
Em Fermentelos, de tão pungente e actual panorama, vêm sobrando os exemplos do penoso decaímento trazido pelos múltiplos adventos de “progresso” e “desenvolvimento”, como sobram seus patrocinadores, sempre prontos a maravilhados e acríticos elogios das mais diversas subversões operadas. Que sugere a estes vultos locais o destaque regional da Arquitectura de Terra, que se lhes não ouve senão aplausos ante sua delapidação?
Aqui e aqui, estigmatizou-se de tal maneira a terra crua como ‘pobre’ que esta, onde ainda resiste, o faz desligada, tapada ou afrontada. Faz-se muito de conta que não se passa nada nem que no fundo nada é connosco, porque em presunções privadas, propriedades burocráticas e solilóquios on dinheiro quase tudo se esgota. Pois que faz o colectivo? Vemos em senil indulgência num par de extasiadas gerações a presumível solidez cozida do tijolo e a instantaneidade cimentada tomarem a dianteira do esquecimento e do desprezo popular da terra, a par, por exemplo, da monopolização obcecada da floresta por pinheiro e eucalipto e da transfiguração agrocultural de chancela petroquímica, realinhando passagens e sentidos.
Largos tornam-se rotundas, fontes secam, entopem-se valetas e valas, atafulham-se as gentes de indiscriminado lixo. Cai a fruta picada pela mosca, arrancam-se as vides, constroem-se navios de à-parte-mentos. “X-povoação cresceu muito”, é comentário usual, mas a avaliação da terra tornou-se a ficção ‘profissional’ que ‘estado’, ‘mercado’ e abstracções similares delimitam. Não valerá muito mais a nossa terra que qualquer aérea podre correspondência? Não vale nossa terra arquitectada mais que os centos de cimento importado? Não certamente se lhe faltamos ao respeito.
*
P’la IJTN, a vontade de religação à terra em seu presente, mais que celestiais amanhãs ou turísticos niilismos, demanda reparadora justiça. Por isso, em Aveiro, via V Seminário ATP, buscámos a recolecção argamassada de nossos primevos em todas as circulações, que reboco algum de esquecimento poderá abafar a resistente lembrança de restauração artefactualmente intentada.
Friday, October 12, 2007
Da Vila Vigoni à Vila de Fermentelos
Em 1994, na Vila Vigoni (Lago de Como), um encontro promovido pelo Secretariado da Conferência Episcopal Alemã e pela Comissão Pontifícia para os Bens Culturais da Igreja sobre o tema “A conservação do património cultural como dever do Estado e da Igreja” originou a ‘Carta da Vila Vigoni – sobre a conservação dos bens culturais eclesiásticos’.
Interessante documento de intenção, sustenta a Carta da Vila Vigoni dever a manutenção constante dos bens culturais ser considerada a obrigação concreta mais importante de cada comunidade responsável pela sua protecção, mais a mais adiantando dever reparações consideradas necessárias atender à substância cultural e conteúdo religioso dos bens e ser confiadas somente a pessoal com experiência reconhecida.
Sendo “os esforços da Igreja na protecção e manutenção dos seus bens culturais móveis e imóveis particularmente urgentes no momento histórico actual, quer para contrariar os processos de secularização, como de dispersão e profanação que o ameaçam”, assinala ainda a referida Carta, procura a Igreja “responder às questões emergentes das santificações, segundo a identidade e a continuidade do património histórico dos povos.”.
Povos antes simples e humildes e agora complexos e aviltados que sejam – que manutenção religiosa entretanto?
Antes? Antes – Agora – subtrair a comunidade no que à cultura material e ao devir popular diz respeito (precisamente) é em simultâneo inscrição e leitura da constituição moderna de que muitos se queixam nominalmente mas que poucos combatem realmente. Porque como ao respeito (re-vidente) nada acrescenta o play-back-ing [d]e porcaria (“Mas não comereis aqueles que só ruminam e não têm a unha fendida, ou só têm a unha fendida e não ruminam” – Lev. 11, 4), ao adobo nada acrescenta o cimento: da intentada Vila Vigoni à manifesta Vila Fermentelense, perdidas religação e restauração em €-migrações de sentido.
Diminuídas de realidade convivente, edificada e edificante, também as palavras se perdem, absurdas, ditas como se seus contrários fossem, subvertendo-se valores colectivos sob a chancela de vertigens numéricas para aferir da justiça das coisas.
Se lembramos que o único imóvel patrimonial eclesiástico de origem (em integridade de processos nativos) em Fermentelos se encontra “para venda” (v. http://fermentelos.diocaveiro.net/paroquia.html), que vozes resistem dignas dos nossos antepassados, André Fermentelos?
Na aldeia cosmovivente, é o lugar que se perde quando a maravilha é a mutilação e a arquitectura de e da terra se entrega para alienação.
Thursday, June 21, 2007
Estás em Fermentelos: Esquece-te
Do esquecimento como processo personificado (mascarado), mobilizado em nome de modernidade, desenvolvimento, progresso, civilização;
Do esquecimento que a generalizada tipologia de subúrbio determina em termos de materiais, conceitos e construções civis;
Do esquecimento qual reinscrição e recomposição do real pela subversão no terreno de precursores valores e localizações;
Do esquecimento das religações passantes em procissão, das fontes e dos sentidos (e semânticas) das ruas;
Estás em Fermentelos: Esquece-te (pistas para uma etnografia do esquecimento Fermentelense)...
caption: Ao Cruzeiro, Fermentelos, [Junho, 2005], intervenção gráfica via Paint Shop Pro



