Thursday, August 27, 2009

Ao Cruzeiro IX - Da Senhora da Saúde ao 25 de Agosto aos Largos de Fermentelos

Há passagens que são presenças – de velas em procissão, bandas em reunião, bicicletas em competição – que confrontam ausências e convocam presenças outras. Suspendendo o tal fatalismo redundante dito automobilizado que a péssima gestão do trânsito (sentidos e alinhamentos, confinâncias e pavimentos) em curso deslocalizador fomenta, batem-se práticas mas não se debatem tecnologias, porque, afinal, p’la Senhora da Saúde como que suspenso o juízo da normalidade e reassumidas Assunções que nos transcendem, elevando-nos de um quotidiano que sabemos aqui. Por momentos que são eventos, passantes e presentes performatizando instantes de Largo confrontam vazios terrenos, prédios entaipados e portas fechadas, a cada ausência evocada e a cada carro no meio da rua contrapondo a sua passagem em festa.

Ora, tomado a partir do referencial festivo, liminar se revela o dia-a-dia para quem se não afasta da vila em alegações de férias e abdica de celebrar, apesar dos apesares, porque mais que a autoridade formal relevam os termos de comparação realmente consagrados em circulação. E se tudo concorre nas possibilidades envolventes dos espaços colectivos, divergem já grosseiramente as famílias ao Largo, como que em directa proporcionalidade face às partituras aparelhadas democráticas, como se esquece o bem comum na alienação da tradição, meramente representada ou apresentada em confraria para a fotografia.

Alterando-se as relações-ligações estruturais para pior (pior arquitectura, cultura e qualidade de convivência) traduzem-se então as falências processuais como falências geracionais, na medida em que velhas místicas construtivas cedem lugar aos mesmos maus azeites patentes em qualquer subúrbio subordinado a qualquer “cidade”. A questão, porém, anda longe de se esgotar em rótulos de “cidadania” se decerto a nossa identidade jaz ainda por baixo de morros de silvas que – ainda – vão protegendo – encobrindo - este e aquele bastião de resistência, nossos muros, poços e casas de adobo, fontes...e os desfalecidos Largos ao largo, do Cruzeiro ao Carvalhal ao Sobreiral agora meras designações.

Não foi pela presença e dimensão das árvores da nossa iniciativa, não confundidas com exemplares de gabinete, que orgulhosamente nos demarcámos e demarcámos nossos caminhos? Como aceitar que nossos Largos – de nossos entrecruzamentos – se achem exemplarmente desfalecendo a soldo de directivas entaipadas d’abstracções imobiliárias?

A vida que falta a Fermentelos é a nossa e não é uma pós-vida da U.E., a via que falta a Fermentelos é a cooperativa, nossa substância partilhada podendo e devendo assegurar regulações próprias. Que podemos fazer cooperativamente senão o melhor do que é nosso para todos nós? Podemos e devemos valorizar a nossa terra, mas tal implica localizar trabalho e assegurar religações práticas. Ou já morreu toda a gente que pescou artesanalmente na Pateira, que fez adobes e construiu em vernáculo, que cá trabalhou a madeira de cá, que esteve no arroz e na vinha?

Porque ainda podemos ser um centro performativo de excelência, com Largos e não ao largo, saibamos inflectir o amnésico degredo modernista restaurando o usufruto de nossas propriedades, associando produções e assegurando um standard de justiça e valor nativo, de verdade que não figuradas juntas vontades puxando a carroça de Fermentelos.


in Região de Águeda, 27/08/09

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