De balanços cruzados ao Cruzeiro de Fermentelos: levantem-se museologia
crítica, cultura material e ecologias não-humanas no sentido de inventariar o centro
histórico da vila - um Cruzeiro de cruzamentos definido - em penoso contraste
circundante. Se fosse só a memória…
Num perímetro supostamente protegido da monstruosidade da especulação
imobiliária pelo seu carácter patrimonial, em, digamos, vinte anos – sim, porque isto é
também ou sobretudo um testemunho geracional – as circunstâncias alteraram-se de
tal forma que o presente se pode definir em termos adversativos. Reduzindo a grande
narrativa à guerra de fundo que tudo condicionando se trava em todo o lugar, temos
que em Fermentelos se traduz o combate na passagem de “não concedemos que seja
como em ‘qualquer lado’, porque aqui e aqui sabemos fazer e fazemos” para uma
atitude refugiada na alegada inevitabilidade de ídolos e chavões.
Ao Cruzeiro a síntese operada é evidente e representa em sua centralidade
estropiada a falência do processo autóctone face à afronta modernista e a seus
dispositivos estandardizado(re)s. Se decerto uma tendência já então verificável, mais
certo é ainda que quem a vinte anos não consegue evocar este Largo e o contempla
hoje não faz ideia do que se perdeu. Chegámos a um ponto-de-assembleia em que as
melhores casas que fizemos tombam – deixadas cair, postas abaixo – e as árvores de
fruto cedem lugar ao cimento que não produzimos mas cujos sacos acartamos, a moral
da história sendo, cá está, a história da desmoralização de uma vila, exemplarmente
sublinhada na mutação arquitectónica em questão – e sobretudo no que esta traduz
enquanto curto-circuito cultural. Afinal, o que deixamos cair e demolimos, o que
deixamos ao abandono e desconsideramos, votamos (eis o belo do voto botado à urna
democrática) ao ostracismo, de identidade restando quanto muito um bilhete de uma
República que, após cem anos, segue por reconhecer uma antiga terra de Rei e trata a
maior lagoa natural da Península Ibérica como um paul de pacóvios.
Em vinte anos de desintegração portuguesa na Comunidade-União-Europeia (o
a€reo sendo tão só aquele bónus inflacionando a ilusão do hiper-mercado), decaímos
no terreno e parece quase impossível resistir à voragem, mas podemos tentar de facto e
à escala: não se sente cada fermentelense implicado em cada fermentelense
performance ou instalação? Por que não geramos nossa energia e tratamos de nossos
processos em nossos termos? Porque são medíocres estes nossos tempos?
Fazendo um balanço de vinte anos,
Da resposta às retóricas do sistema só poder ser dada por sistemática e
localizada recolecção, remontando afazeres e da cepa de Fermentelos fazendo
demarcadas Reservas, um ensaio escatológico do desenvolvimento usurário à economia
directa nativa em perspectiva.
Monday, August 9, 2010
Subscribe to:
Comments (Atom)
