Nos passados dias 10, 11, 12 e 13 de Outubro, teve lugar o V Seminário de Arquitectura de Terra em Portugal (ATP), organização conjunta do Centro da Terra, da Escola Superior Gallaecia, da Fundação Convento da Orada e do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro. Para além das apresentações do seminário propriamente dito (a 11 e 12), constou no dia 10 o programa de uma ‘Oficina de Outono’ incidente em cinco módulos (laboratório de solos, taipa, adobe, bloco de terra comprimida e alvenaria), assinalando-se a Sábado, 13, um dia de campo nomeadamente pontuado por uma reconstituição artesanal do fabrico do adobe em Oliveirinha e por uma visita ao Museu Etnográfico de Requeixo. Além do mais, na Galeria da Capitania de Aveiro, esteve patente entre 12 e 21 do passado Outubro, uma exposição sobre Arquitectura de Terra, organizada pela divisão de Museus e Património Histórico da Câmara Municipal de Aveiro e apresentando “fotografias de saibreiras, rostos humanos, testemunhos e utensílios usados por aqueles que dedicaram uma parte da sua vida às construções em terra”.
Numa altura e num contexto em que cresce a acuidade reflexa integrada sobre o modo de fazer as coisas e concomitantes cosmovidências, a congregação internacional em seminário de associados agentes à construção e manutenção de estruturas em terra e relacionados eventos revelou-se particularmente pungente ocorrendo numa região que apresenta ainda uma importante dotação telúrica edificada (35 a 40% do património edificado na região de Aveiro é de terra feito). Com efeito, perante a hegemonia pseudo-eficiente do eixo cimento-tijolo-betão (a absorção de água é superior em 305% no cimento por comparação com a cal), fomentada pelos arautos da vertigem modernista, a assunção académica do vernacular eixo argila-areia-cal-pozolana é de assinalar enquanto reatribuição de valor e restauração de sentido cultural e popularmente arquitectado, trazendo à ATP afins entrepostos de resistência, de Angola ao Irão, do México a Omã, Brasil, Marrocos, Itália, Espanha, Índia, Peru, Argentina, Canadá, E.U.A., Quénia, Colômbia, Moçambique, Venezuela, Gana ou Hungria.
Está longe, porém, de consensual, o reassumir tecnológico nativo de trabalhar e cuidar da terra, quando e se a República (a coisa pública, as coisas públicas) está a soldo de e a saldo para mercenários corporativos que, na suposta justiça abstracta do mercado, impõem seus materiais e procedimentos, seus contratos e suas avaliações independentemente de quaisquer considerações efectivas sobre o bem comum, nomeado este apenas a título de engodo, qual enviesamento perceptivo.
Afinal, quando no seio da comunidade académica e científica cresce o reconhecimento da qualidade e adequabilidade da mais antiga e mundialmente disseminada matéria construtiva, são as próprias populações quem, aparentemente e à superfície, mais alheadas se encontram do vernáculo que, de geração para geração e até há bem pouco tempo – no caso Português particular da região de Aveiro – protagonizaram técnica e localmente.
Embora em muitas leituras, cartas e declarações de intenção transnacionais se sustente claramente dever o enquadramento tradicional ser conservado e dever prescrever qualquer construção nova, qualquer destruição ou qualquer arranjo susceptível de alterar as relações de volume e cor (Carta de Veneza, 1964, Artº6), por cá contam-se agora pelos dedos os que seguem perseverando num saber-fazer de viva memória e vivente voz que assegure a continuidade dos sistemas tradicionais de construção: o património vernáculo não obedece somente aos elementos materiais, edifícios, estruturas e espaços, mas também ao modo em que é usado e interpretado pela comunidade, assim como às tradições e expressões intangíveis associadas ao mesmo (Carta do Património Vernáculo Construído, 12ª Assembleia Geral do ICOMOS, México, 1999).
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Em Fermentelos, de tão pungente e actual panorama, vêm sobrando os exemplos do penoso decaímento trazido pelos múltiplos adventos de “progresso” e “desenvolvimento”, como sobram seus patrocinadores, sempre prontos a maravilhados e acríticos elogios das mais diversas subversões operadas. Que sugere a estes vultos locais o destaque regional da Arquitectura de Terra, que se lhes não ouve senão aplausos ante sua delapidação?
Aqui e aqui, estigmatizou-se de tal maneira a terra crua como ‘pobre’ que esta, onde ainda resiste, o faz desligada, tapada ou afrontada. Faz-se muito de conta que não se passa nada nem que no fundo nada é connosco, porque em presunções privadas, propriedades burocráticas e solilóquios on dinheiro quase tudo se esgota. Pois que faz o colectivo? Vemos em senil indulgência num par de extasiadas gerações a presumível solidez cozida do tijolo e a instantaneidade cimentada tomarem a dianteira do esquecimento e do desprezo popular da terra, a par, por exemplo, da monopolização obcecada da floresta por pinheiro e eucalipto e da transfiguração agrocultural de chancela petroquímica, realinhando passagens e sentidos.
Largos tornam-se rotundas, fontes secam, entopem-se valetas e valas, atafulham-se as gentes de indiscriminado lixo. Cai a fruta picada pela mosca, arrancam-se as vides, constroem-se navios de à-parte-mentos. “X-povoação cresceu muito”, é comentário usual, mas a avaliação da terra tornou-se a ficção ‘profissional’ que ‘estado’, ‘mercado’ e abstracções similares delimitam. Não valerá muito mais a nossa terra que qualquer aérea podre correspondência? Não vale nossa terra arquitectada mais que os centos de cimento importado? Não certamente se lhe faltamos ao respeito.
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P’la IJTN, a vontade de religação à terra em seu presente, mais que celestiais amanhãs ou turísticos niilismos, demanda reparadora justiça. Por isso, em Aveiro, via V Seminário ATP, buscámos a recolecção argamassada de nossos primevos em todas as circulações, que reboco algum de esquecimento poderá abafar a resistente lembrança de restauração artefactualmente intentada.

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